Motos, gangues e rock clássico tomam conta do 'novo' GTA IV

 

Johnny Klebitz é o protagonista de 'Lost and damned', expansão de 'GTA IV' para Xbox 360 (Foto: Divulgação)

Nos 10 primeiros minutos de “GTA IV”, o imigrante europeu chegava de navio aos EUA para “conquistar seus sonhos”. Nos 5 primeiros minutos de “Lost and damned”, o líder de um clube de motoqueiros sai da clínica de reabilitação para dependentes químicos, toma uma garrafa de tequila e pergunta “cadê minha moto?”. Seja bem-vindo, portanto, ao novo capítulo de “GTA IV” no Xbox 360: temas fortes, missões curtas, novos personagens, trilha rock'n'roll e uma bela homenagem ao estilo de vida motoqueiro.

 

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O protagonista de “Lost and damned” é Johnny Kleibitz, vice-presidente dos “Lost”, clube de motoqueiros que vai se transformando em gangue criminosa a cada moto roubada. Enquanto a nova rádio de Liberty City toca Deep Purple (“Highway star”, em um programa apresentado por Iggy Pop, ele mesmo), Johnny vai com os “irmãos” até a clínica de reabilitação. Eles pegam Billy Grey, o presidente, e voltam para a sede do clube. Pelos próximos cinco minutos você só consegue pensar em comprar uma Harley Davidson. 


A mecânica de pilotagem de motos foi aprimorada em “Lost”, pacote de expansão para “GTA IV” vendido por 1600 Microsoft Points (cerca de US$ 19,90) via download. Isso torna a expansão mais saborosa e garante uma nova experiência na incrível metrópole de Liberty City. Teoricamente, é apenas uma lista de “coisas novas”: mais personagens, missões, músicas, armas, carros, motos, sites de internet, modos de jogo multiplayer e, claro, a nova temporada do programa de TV “Republican space rangers”. Na prática, é uma aventura emocionante e que proporciona uma nova experiência na cidade que tantas semelhanças tem com o mundo real. 

 

Agora sobre duas rodas


É impossível não se lembrar de “Full throttle”, adventure da fábrica de sonhos LucasArts lançado em 1995. A camaradagem entre os motoqueiros, o espírito de união em duas rodas e as clássicas piadas de carros (ou, no caso, de motos modernas) trazem boas lembranças desde o início. 
 

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Johnny é vice-presidente do clube de motoqueiros Lost, embora a polícia não goste muito disso. O jogo começa quando ele vai buscar o presidente Billy na clínica de reabilitação (Foto: Divulgação)

Para um pacote de expansão, a vida útil da campanha principal é generosa. Foram cerca de 10 horas para completar as missões principais, concluir algumas optativas e chegar aos 70% do total. Ou seja: ainda restam 30% de missões alternativas, sem contar as partidas online.

Em pouco tempo você descobre as corridas pela cidade e se reencontra com uma espécie de “Road rash”, clássico de 1991 que simboliza até hoje a ramificação “delinquente” das corridas de moto. Você (Johnny) ganha um taco de beisebol e disputa corridas por circuitos improvisados em Liberty City – pode dar porrada nos adversários e somar cerca de $500 por cada vitória. Essas corridas não fazem parte da campanha principal, e podem ser disputadas quando você quiser.

As “guerras de gangue” são outra categoria de eventos paralelos, e opcionais. Vá até o ponto indicado no mapa, espere o resto da gangue chegar e siga para eliminar alguma gangue rival – os rendimentos podem passar de $ 6 mil por grupo eliminado. 

 

Histórias que se cruzam


O protagonista Johnny K tem algo em comum com Niko Bellic, herói do “GTA IV” original. Eles não são personagens de apelo imediato, mas começam a mostrar personalidade no decorrer das missões. O vazio narrativo típico da série “GTA”, porém, dá a Johnny a profundidade psicológica de um “smiley” de MSN. Num instante ele está insatisfeito com a postura baderneira do presidente Billy, e minutos depois está seguindo a linha do chefe, gastando tiros pela rua, sem aparentar qualquer conflito.  

 

 

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Respeito e admiração mútua são temas constantes entre as gangues de motoqueiros rivais de Liberty City. A fraternidade contamina Losts, Deadbeats e Angels of Death (Foto: Divulgação)

O enredo de “The lost and damned” é bom o suficiente para criar boas situações e cruzar a história de maneira interessante com a épica campanha do “GTA IV” original. Você vai reencontrar velhos conhecidos, entender outras versões dos conflitos e até mesmo reviver algumas missões que pareciam ocupar um passado distante.

“The Lost” reúne temas pesados, o que prova, mais uma vez, que videogame é coisa de adulto – ao menos na visão dos irmãos Houser, insanos produtores da Rockstar. Policiais corruptos, consumo e tráfico de drogas ganham contornos reais em personagens viciados e até em “mulas” que chegam ao aeroporto com cocaína no estômago. Você já leu notícias assim dezenas de vezes na vida real – não venha culpar “os malditos videogames”. 

 

 

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Motoqueiros não se dão bem com artefatos de quatro rodas. Pior ainda se for amarelo  (Foto: Divulgação)

Você tem o clube de motoqueiros, uma rede social estabelecida, com amigos que prestam favores, e um mapa recheado de inimigos. Tentar a sobrevivência nessa terra será sua missão principal. 

 

Deus perdoa, os Lost, não


Max Cavalera, ex-vocalista do Sepultura, apresenta um programa de death metal na Liberty City Hardcore Rock, rádio que ganha músicas como “Dead embryonic cells” (Sepultura), “Inner sanctum” (Entombed) e “I cum blood” (Cannibal Corpse). Iggy Pop, um dos pioneiros do punk rock com os Stooges, estreia com a Liberty Rock Radio, estação preferida dos motoqueiros e que traz clássicos como “Run to the hills” (Iron Maiden), “Touch too much” (AC/DC) e “Every picture tells a story” (Rod Stewart), música que puxa os créditos finais.

A lista de novidades de “The lost” inclui também seis armas (destaque para o taco de sinuca e o lança granadas), cerca de 50 músicas, 17 motos, três carros e cinco modos de disputa em partidas online. 

 

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'Irmãos para sempre' é o lema dos motoqueiros do Lost Motorcycle Club. Mas, ao contrário da vida real, sempre aparece alguém disposto a ignorar o combinado (Foto: Divulgação)

No clube dos motoqueiros estão disponíveis minijogos, como queda de braço (lucro fácil), baralho (sem graça), sinuca e uma nova máquina de fliperama. A TV passa a nova temporada do desenho animado “Republican space rangers”, com 400 piadas políticas por minuto, a internet tem novidades interessantes e as casas de show apresentam novos bons humoristas de palco. O político Thomas Stubbs tem uma conta no Twitter – no mundo real. Ou seja: Liberty City ainda é o melhor lugar para morar. 

 

 

 

Onde o sonho americano vai para morrer

“The lost and damned” é uma excelente expansão – e a primeira de um total de duas - para um dos melhores jogos de 2008. Além de trazer uma nova história, ácida, crítica e que se sustenta em bons personagens e no sedutor mundo de liberdade sobre duas rodas, as novas opções multiplayer e roupagem rock dão vida nova à Liberty City. Pena que a novidade não esteja disponível para donos de PlayStation 3 e PC – a exclusividade é da Microsoft.

E, por mais que a Rockstar saiba exatamente onde colocar um outdoor escondido com recados subliminares em uma esquina abandonada para nos fazer vibrar, a falta de habilidade narrativa de “GTA” torna-se evidente. Em “GTA IV”, o tamanho do universo ajudava a esconder esse defeito. Em “The lost”, com duração mais curta, os personagens são bonecos sem motivações, as missões têm todas o mesmo peso: esteja você comprando um cachorro-quente na praça da Estátua da Felicidade ou invadindo uma prisão para resgatar um ônibus de presos. Um mundo autêntico é indispensável, mas saber contar uma história (como na séria “Mafia”, por exemplo) é fundamental.